sexta-feira, 18 de setembro de 2009

COMO SURGIU A PSICOSSOMATICA


Como surgiu o conceito de psicossomática?


Desde Asclépio na antiga Grécia, encontramos registros da tentativa de restaurar a vida mental de alguém! E com conseqüências para seus defensores. Asclépio foi morto de modo fulminante por um raio enviado por Zeus, enraivecido com a idéia do Hades (inferno) ficar vazio. Ainda na Grécia antiga, Hipócrates vai desenvolver essa arte ao decifrar o segredo da relação da alma e do corpo.

Aristóteles (3 séculos A.C) compreendeu muito mais racional do funcionamento do mundo e do corpo humano e qualquer hipótese, por esse tempo, assumia que a natureza e a vida seriam regidas por leis naturais, não psicológicas.

No séc III, com o pensamento de Santo Agostinho a doutrina de Platão (o Espírito regendo os princípios da vida) veio encontrar eco e se constitui em uma segunda via – o Idealismo, se opondo ao racionalismo de Aristóteles.
A partir desse momento, e até ao fim da Idade Média, a cura de uma doença passou a ser compreendida como o curar da alma. Curar o espírito teria como conseqüência curar o corpo, vindo daí a idéia do espírito ser superior à carne.

Com o passar do tempo, particularmente com a interpretação errônea do pensamento de Descartes - interpretado como uma divisão entre o corpo e a mente -, o que veio ser conhecido como o Dualismo Cartesiano, ocorreu uma uniformização no pensamento sobre a questão do corpo e da alma - o homem foi compreendido como dividido entre os assuntos da alma (aqui já compreendida como a Razão) e o funcionamento do corpo (Físico). Cada um deles deveria ser estudado em separado por diferentes disciplinas.

Porém, mesmo em meio à superioridade do dualismo Cartesiano, por várias décadas, houve relevantes iniciativas em buscar a conexão entre a mente e o corpo. Auguste Comte e Emannuel Kant acreditaram que a Razão não possuía recursos para a metafísica ou a transcendência observada na existência humana e, particularmente, no adoecer. Em 1818 o médico psiquiatra J.C. Heinroth (1773-1843), descreveu as relações chamadas de paixões sexuais em quadros de tuberculoses, epilepsia ou câncer e utilizou o termo “psicossomática” em seus estudos, constituindo-se em referência para toda forma de pensar e compreender a unidade entre a mente e o corpo na experiência da doença.

Nesses desdobramentos históricos do problema, já no fim do século XIX, Wilhelm Dilthey (1833-1911), estruturou um sistema - o historicismo (1833), para estudar o desenvolvimento humano e a essência do Espírito. No seu entender o Espírito humano impregnava a realidade histórica dando a ela sentido de futuro.

Fundamentos que estruturaram o trabalho de Georg W. Groddeck (1866-1934) e também de Félix Deutsch (1894-1963) que, em 1922, resgatou o termo “psicossomática” de Heinroth e o re-introduziu como “medicina psicossomática”.

Tais conceitos foram também essenciais para a obra de Freud que irá re-inventar a Mente ou Razão, presentes lá em Descartes, no que viemos conhecer como a psique humana.

No século XX com estudos sobre as repercussões endócrinas nas adaptações ao meio ambiente, Hans Selye em 1936 e Cannon descreveram o funcionamento neurovegetativo (reações adrenérgicas, modicações humorais) em condições de enfrentamento de situações críticas. Em Chicago (USA), Franz Alexander ao estudar pacientes que lhes apresentavam indicações de haver causas não especificamente orgânicas, mas de uma intenção no adoecer, formula a hipótese de haver respostas padronizadas, como tinha sido dito por Selye, Cannon e outros pesquisadores da época, que estavam relacionadas á produção neurovegetativa. Essa produção neuronal e endócrina era regida de acordo com a história organizada pela psique. Alexander, propôs que as respostas-padrões seriam sempre as mesmas para cada tipo de doença, na ocorrência dos mesmos conflitos na psique. O que viria caracterizar, as então chamadas, doenças psicossomáticas. Ao comprovar tal hipótese, descreveu as sete doenças psicossomáticas: asma brônquica, úlcera gástrica, artrite reumatóide, retocolite ulcerativa, neurodermatose, tireotoxicose e hipertensão essencial. Caracterizando cada uma como sendo uma especificidade do funcionamento da psique, vindo ser conhecida como a “Teoria da especificidade do conflito”.

Nos anos que se seguiram ocorreram fortes desdobramentos em função da teoria de Alexander. Uma delas foi sua própria tentativa de aliança com Helen Dunbar (1902-1959) que procurava encontrar traços comuns entre pacientes de diversas patologias e associar doenças e perfis de personalidades. Anos mais tarde as idéias de Alexander e Dunbar foram re-testadas e confrontadas por outros pesquisadores.

Hoje se tem que não existe um perfil de personalidade do portador de uma das sete doenças psicossomáticas. As pesquisas vieram demonstrar perfis de personalidade comuns a diversas patologias orgânicas, o que não explicita uma correlação inequívoca e portanto um perfil particular para cada patologia. Porém, devido ao fato de Alexander na “Teoria da especificidade do conflito”, destacar conflitos ainda não conscientes no paciente, a presença de esquemas complexos no modo de lidar com os impulsos contraditórios, como o amor e o ódio; enfim, uma discussão psicológica numa perspectiva da história de vida é que seu trabalho tenha dado um impulso ao surgimento de uma, já não mais medicina psicossomática, porém do que atualmente concebemos como Concepção Psicossomática. Esta não depende unicamente do saber médico, mas segundo a estrutura da psique de cada um dos pacientes que requerem uma compreensão específica dos fatores emocionais que operam em cada caso e também dos mecanismos fisiológicos por meio dos quais as vivencias emocionais influenciam o processo de adoecer.

Bibliografia

Alexander, Franz (1989). Medicina psicossomática: seus princípios e aplicações.Trad. Célia Fischmann, Beatriz. - Porto Alegre: Artes Médicas, p.198.

Castiel, Luís D. Psicossomática e eficácia: além do princípio do placebo. J. brás. Psiq., 40 (5): 267-272, 1991.

Georg, Groddeck, O Livro dISSO. Edição de 1997. São Paulo: Edit. Perspectiva.

Mello Filho, Júlio (1994) Concepção Psicossomática: Visão atual. 7ª edição. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.

Ramos, Denise G. (1994) A psique do corpo: uma compreensão simbólica da doença. São Paulo: Summus.


* George Souza Barbosa é psicólogo e educador

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